Escrito por Frode Skar, jornalista financeiro.
Disney nomeia chefe de parques Josh D’Amaro como novo CEO e encerra a era Bob Iger

Uma sucessão aguardada há anos
A The Walt Disney Company anunciou que Josh D’Amaro será o novo diretor executivo, sucedendo Bob Iger e encerrando um longo período de especulação sobre a liderança de um dos maiores conglomerados de entretenimento do mundo. D’Amaro assume o cargo em 18 de março, enquanto Iger permanecerá como conselheiro sênior e membro do conselho até o fim de seu contrato, em dezembro.
A decisão busca evitar a repetição do episódio turbulento da última sucessão. Em 2020, Iger entregou o comando a Bob Chapek, mas a relação se deteriorou rapidamente, culminando em um conflito interno que levou ao retorno de Iger em 2022. Esse histórico aumentou significativamente a pressão para que o processo atual fosse conduzido de forma mais cuidadosa e previsível.
O peso estratégico dos parques e experiências
A escolha de D’Amaro deixa claro onde está hoje o centro de gravidade financeiro da Disney. Parques temáticos, cruzeiros e experiências presenciais tornaram se o segmento mais estável e rentável da companhia, em contraste com a volatilidade do cinema e as dificuldades estruturais do streaming.
Desde 2020, D’Amaro lidera a divisão Disney Experiences, responsável por resultados robustos e por um ambicioso plano de investimentos de dezenas de bilhões de dólares em expansões de parques e novos navios de cruzeiro. A estratégia parte da premissa de que experiências físicas aprofundam o vínculo emocional com a marca e sustentam receitas recorrentes, mesmo em cenários econômicos adversos.
Em recentes teleconferências de resultados, Bob Iger destacou repetidamente que esse negócio nunca foi tão amplo e diversificado. Com D’Amaro como CEO, essa prioridade deixa de ser conjuntural e passa a ser estrutural.
Um perfil diferente do último CEO
D’Amaro é o segundo chefe de parques a ascender ao cargo máximo, mas seu perfil difere de forma relevante do de Chapek. Enquanto o ex CEO era visto como excessivamente focado em custos e menos sensível à cultura criativa da empresa, D’Amaro construiu reputação como líder que combina execução operacional com profundo entendimento da marca Disney.
Iger descreveu D’Amaro como alguém com percepção instintiva do que conecta com o público, aliada ao rigor necessário para entregar projetos complexos. Entre funcionários e fãs, ele é conhecido por visitar frequentemente os parques e valorizar publicamente os chamados cast members, reforçando uma cultura corporativa baseada em engajamento e proximidade.
Dana Walden assume papel criativo central
Junto com a nomeação de D’Amaro, a Disney anunciou que Dana Walden passará a ocupar o cargo de presidente e chief creative officer, uma posição descrita pela empresa como histórica. Walden ficará responsável por garantir coerência criativa e narrativa em todos os pontos de contato com o público, reportando se diretamente ao novo CEO.
A mudança sinaliza uma tentativa de corrigir críticas recorrentes sobre fragmentação criativa e falta de direção clara no conteúdo produzido pela companhia. Ao centralizar a liderança criativa, a Disney busca alinhar storytelling e objetivos comerciais em um momento de intensa competição por atenção.
Um setor em transformação profunda
O novo comando assume em meio a mudanças estruturais na indústria de mídia. O crescimento do streaming desacelerou, os custos de produção permanecem elevados e a lucratividade continua sendo um desafio. A televisão tradicional segue em declínio, enquanto o cinema enfrenta receitas cada vez mais imprevisíveis.
Nesse contexto, parques e cruzeiros se destacam como ativos físicos com demanda relativamente previsível e forte poder de precificação. Consumidores podem cancelar assinaturas, mas experiências presenciais mantêm valor social e emocional difícil de substituir. A estratégia da Disney sob D’Amaro parece apostar nessa assimetria.
A recente decisão de desenvolver um novo parque em Abu Dhabi, o primeiro em quinze anos, reforça essa visão. D’Amaro participou ativamente do projeto ao lado de Iger, evidenciando seu papel central na expansão internacional da empresa.
Desafios que aguardam o novo CEO
Apesar da força do negócio de experiências, D’Amaro herda um portfólio complexo. O streaming segue pressionado por margens apertadas e incertezas estratégicas. O estúdio cinematográfico precisa recuperar credibilidade após resultados abaixo do esperado, em um ambiente de crescente sensibilidade política e cultural.
Outro desafio relevante será a alocação de capital. Os investimentos maciços em parques exigem equilíbrio com disciplina financeira em outras áreas, especialmente em um cenário de custos de financiamento mais altos.
O olhar dos investidores
Do ponto de vista do mercado, a nomeação é vista como uma escolha de continuidade, não de ruptura. Em transições de liderança, investidores tendem a valorizar previsibilidade, e o conselho deixou claro que essa foi uma prioridade.
A decisão de Iger de antecipar sua saída foi apresentada como sinal de que o sucessor está preparado. Ainda assim, investidores acompanharão de perto se D’Amaro conseguirá transferir a eficiência operacional dos parques para os demais segmentos do grupo.
Um encerramento controlado da era Iger
Bob Iger moldou a Disney moderna por meio de aquisições transformadoras e expansão global. Seu retorno em 2022 trouxe estabilidade após um período conturbado, mas a sucessão permanecia como questão em aberto.
Desta vez, a transição foi desenhada para evitar ambiguidades. Iger permanece como conselheiro, mas o comando executivo passa de forma clara para D’Amaro.
O sinal estratégico do novo comando
A ascensão de Josh D’Amaro vai além de uma troca de nomes. Ela reflete a convicção de que o crescimento futuro da Disney estará ancorado em experiências presenciais, apoiadas por uma narrativa criativa consistente em todas as plataformas.
A empresa aposta no que hoje gera caixa e lealdade, enquanto tenta reorganizar áreas mais frágeis. Se essa estratégia garantirá crescimento sustentável no longo prazo ainda é incerto, mas a direção escolhida é inequívoca.
