Escrito por Frode Skar, jornalista financeiro.
A ordem mundial de Trump é descrita como um trator que destrói a estabilidade global

A ordem mundial de Trump sob alerta severo antes da Conferência de Segurança de Munique
A ordem internacional que moldou a política, a segurança e a cooperação econômica desde o fim da Segunda Guerra Mundial está se desfazendo, e os Estados Unidos passam a desempenhar um papel central nesse processo. Esse é o alerta principal de um novo relatório divulgado antes da Conferência de Segurança de Munique, que reúne nesta semana mais de 60 chefes de Estado, além de centenas de ministros, líderes militares e executivos do setor privado.
O relatório descreve o presidente americano Donald Trump como um trator político que passa por cima de instituições, acordos e normas que sustentaram o sistema internacional baseado em regras por mais de oito décadas. Segundo os autores, os efeitos já são visíveis e podem provocar impactos duradouros sobre a estabilidade global, a democracia e a distribuição do poder econômico.
Um diagnóstico duro do cenário global
O relatório anual da Conferência de Segurança de Munique conclui que o mundo como era conhecido deixou de existir. A guerra da Rússia contra a Ucrânia entra em seu quinto ano, ao mesmo tempo em que valores democráticos sofrem erosão em diversas regiões.
Em vez de cooperação e regras compartilhadas, o documento aponta para uma transição rumo à política de força. Acordos transacionais tendem a substituir a cooperação de longo prazo, interesses privados podem se sobrepor ao interesse público, e hegemonias regionais podem ganhar espaço em detrimento de normas universais.
A ordem mundial de Trump como força motriz da desestabilização
A principal responsabilidade por essa mudança é atribuída a Donald Trump e ao que o relatório define como política de trator. Os Estados Unidos, antes arquitetos e garantidores da ordem internacional do pós guerra, agora são descritos como agentes ativos de sua desmontagem.
Em pouco tempo, Trump colocou de lado acordos e instituições internacionais centrais. A Organização Mundial do Comércio foi enfraquecida, disputas comerciais se intensificaram e a ajuda externa americana foi interrompida ou severamente reduzida. De acordo com o relatório, essas ações minaram a confiança nas regras globais e ampliaram a incerteza nos mercados e nas relações diplomáticas.
Questionamento do direito internacional e da soberania
Um dos pontos mais sensíveis destacados no relatório é a postura de Trump em relação ao direito internacional. Os autores afirmam que o presidente dos Estados Unidos questionou abertamente o princípio da soberania nacional, um dos pilares da atual ordem mundial.
Declarações e reivindicações controversas relacionadas à Groenlândia são citadas como exemplo de atitudes que abalaram aliados da OTAN e tensionaram as relações transatlânticas. O relatório alerta que esse tipo de discurso pode normalizar o uso de coerção e pressão como instrumentos legítimos da política internacional.
Avanço de forças autoritárias no cenário global
O relatório ressalta que Trump não é um caso isolado. Forças autoritárias e antidemocráticas avançam em diversos países, refletindo uma tendência global mais ampla na qual movimentos políticos priorizam a destruição em vez da reforma.
Esse fenômeno ocorre tanto em democracias consolidadas quanto em Estados com instituições mais frágeis. O resultado, segundo o relatório, é a perda de confiança nos processos democráticos e o aumento da polarização e da instabilidade política.
A Europa se prepara para uma relação mais tensa com os Estados Unidos
Na Europa, cresce a preocupação com o futuro da relação com Washington. O presidente francês Emmanuel Macron advertiu recentemente que o continente deve se preparar para novos conflitos com os Estados Unidos. A administração Trump é descrita como abertamente antieuropeia, com o objetivo de enfraquecer a União Europeia e a coesão do bloco.
Nesse contexto, há expectativa de que Macron faça em Munique um discurso de dimensão histórica, no qual poderá delinear a resposta estratégica da Europa diante da transformação da ordem mundial de Trump.
Frustração social impulsiona a extrema direita
O relatório também se baseia em pesquisas de opinião que indicam aumento significativo da frustração e do sentimento de impotência entre populações de países ocidentais. Na Alemanha, na França e no Reino Unido, mais da metade dos entrevistados acredita que sua situação não irá melhorar nos próximos anos.
Segundo os autores, esse pessimismo enfraquece a confiança nos sistemas políticos existentes e alimenta o apoio a partidos de extrema direita e movimentos autoritários. Na Alemanha, o partido AfD já é a segunda maior força política e participa pela primeira vez com uma delegação própria da conferência de Munique.
Um sistema que favorece os mais poderosos
O relatório adverte que essa guinada política pode ter consequências profundas para as democracias liberais. Os autores descrevem essa tendência como uma das mais determinantes do século XXI, com potencial para fragilizar sistemas democráticos por dentro.
Ao mesmo tempo, apontam um paradoxo central. Um mundo com regras mais fracas e uma política de poder mais intensa tende a beneficiar principalmente os ricos e poderosos, em detrimento de amplas camadas da sociedade.
Uma semana intensa de diplomacia de segurança
A Conferência de Segurança de Munique encerra uma semana particularmente intensa para a diplomacia de segurança europeia e transatlântica. Antes do encontro, ministros da Defesa da União Europeia, da OTAN e líderes europeus realizaram reuniões separadas.
A Noruega está fortemente representada em Munique, com a presença do primeiro ministro e de vários ministros-chave. A conferência reúne, assim, os principais tomadores de decisão em um momento em que alianças, instituições e o equilíbrio de poder enfrentam crescente pressão.
Um alerta sobre um novo cenário global
A mensagem do relatório é clara. O mundo se afasta da cooperação e das regras compartilhadas e avança em direção a uma ordem mais fragmentada, conflituosa e imprevisível. No centro dessa transformação está uma política americana que, segundo os autores, rompe com décadas de prática internacional.
Para os participantes reunidos em Munique, o desafio central passa a ser como as democracias podem proteger suas instituições, seus valores e sua estabilidade em um mundo no qual os garantidores tradicionais da ordem global já não desempenham o mesmo papel.
