A Europa deixa de ser o centro de gravidade de Washington enquanto o foco estratégico dos Estados Unidos muda

Escrito por Frode Skar, jornalista financeiro.
Contexto
Por mais de oito décadas, a relação transatlântica foi um dos pilares centrais da segurança internacional e da estabilidade econômica global. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a cooperação entre Europa e Estados Unidos sustentou a arquitetura de segurança do continente e ajudou a consolidar uma ordem internacional baseada em regras. Esse equilíbrio histórico, porém, está passando por uma transformação profunda.
Segundo a chefe da política externa da União Europeia, Kaja Kallas, a Europa já não é o principal centro de gravidade de Washington. Essa mudança não é conjuntural nem temporária, mas estrutural. As prioridades estratégicas dos Estados Unidos estão se deslocando, e a Europa precisa se adaptar a uma realidade em que a atenção política, os recursos militares e o engajamento diplomático americanos se concentram cada vez mais em outras regiões.
O que aconteceu
Kaja Kallas alerta que a posição relativa da Europa dentro da política externa e de segurança dos Estados Unidos vem se enfraquecendo gradualmente ao longo dos últimos anos. Embora os EUA continuem sendo um aliado e parceiro fundamental, a Europa não pode mais presumir que Washington atuará automaticamente como o principal garantidor de sua segurança.
Kallas destaca que nenhuma grande potência na história conseguiu sobreviver ao terceirizar sua própria segurança. A mensagem não é de rompimento com os laços transatlânticos, mas de adaptação a uma nova realidade: uma Europa mais forte e mais autônoma, especialmente no campo da defesa, capaz de complementar uma aliança que está em processo de redefinição.
Essa reavaliação ocorre em um momento em que normas, regras e instituições construídas ao longo de mais de 80 anos enfrentam pressões crescentes. O risco de um retorno à política de poder, às esferas de influência e a um mundo em que a força se sobrepõe ao direito tornou-se cada vez mais concreto.
Uma mudança estrutural no equilíbrio global de poder
A perda de centralidade da Europa no pensamento estratégico americano deve ser entendida dentro de um contexto geopolítico mais amplo. A Ásia, e em especial a rivalidade estratégica com a China, passou a ocupar o centro do planejamento de longo prazo dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a região do Indo-Pacífico e partes do Oriente Médio ganharam relevância crescente.
Isso não significa que a Europa tenha se tornado irrelevante para Washington, mas sim que chegou ao fim uma era em que o continente era o foco incontestável da política global americana. Para os formuladores de políticas europeus, esse cenário marca o fim de um privilégio estratégico e o início de uma fase de maior responsabilidade própria.
Implicações para a defesa e a segurança europeias
Um dos pontos centrais do alerta de Kallas é a necessidade urgente de fortalecer as capacidades de defesa da Europa. Muitos sistemas militares modernos são caros ou tecnologicamente complexos demais para serem desenvolvidos por um único país. Defesa aérea, sistemas de satélites, ciberdefesa e plataformas avançadas de armamentos exigem investimentos coordenados e planejamento conjunto.
Sem uma aceleração significativa da cooperação europeia, o continente corre o risco de ficar vulnerável em áreas críticas de prontidão militar. A redução do foco estratégico dos Estados Unidos torna ainda mais urgente o desenvolvimento de capacidades comuns, o fortalecimento da indústria de defesa e a melhoria da coordenação estratégica entre os Estados-membros.
Consequências econômicas
Assumir maior responsabilidade em defesa também traz implicações econômicas relevantes. O aumento dos gastos militares pressionará os orçamentos públicos, mas, ao mesmo tempo, pode gerar oportunidades para a indústria europeia, inovação tecnológica e criação de empregos.
O investimento em defesa está intimamente ligado ao desenvolvimento tecnológico e à capacidade industrial. Uma política de segurança mais autônoma pode estimular pesquisa, produção e modernização de infraestrutura em toda a Europa. Por outro lado, a falta de adaptação pode deixar o continente mais exposto a pressões econômicas, insegurança energética e choques geopolíticos.
Reação dos mercados e visão dos investidores
Os mercados financeiros acompanham de perto as mudanças no equilíbrio global de poder. Uma Europa que demonstre maior autonomia estratégica pode, ao longo do tempo, ser vista como mais resiliente e confiável. No curto prazo, entretanto, a incerteza relacionada à coesão política e aos compromissos de defesa tende a elevar a percepção de risco.
Investidores avaliam estabilidade política, força institucional e capacidade de ação coletiva. A credibilidade europeia dependerá da capacidade de transformar ambições estratégicas em políticas concretas e coordenadas.
Riscos e análise
O maior risco está em uma adaptação lenta ou insuficiente. Um menor foco estratégico dos Estados Unidos, combinado com fragmentação interna na Europa, pode criar um vácuo de poder. Nesse ambiente, aumentam as chances de pressões coercitivas por parte de atores autoritários.
O alerta de Kallas sobre um possível retorno a um mundo em que “a força faz a lei” evidencia o desafio central. Sem instituições fortes e vontade política coletiva, a ordem internacional baseada em regras — que garantiu décadas de relativa estabilidade — pode continuar se enfraquecendo.
O que isso significa daqui para frente
A Europa se encontra diante de uma escolha decisiva. Pode avançar de forma clara rumo a uma maior autonomia estratégica ou permanecer dependente em um cenário internacional cada vez mais dominado pela competição entre grandes potências.
A mudança nas prioridades dos Estados Unidos não é necessariamente hostil à Europa, mas funciona como um sinal de alerta. A forma como o continente responder a essa nova realidade determinará sua segurança, estabilidade econômica e influência global nos próximos anos.
