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Merz defende fortalecer a OTAN na Europa e alerta contra pressões externas

Escrito por Frode Skar, jornalista financeiro.

Contexto

O chanceler alemão Friedrich Merz fez um discurso abrangente no Bundestag no qual descreveu um mundo em rápida transformação. Segundo Merz, a Europa enfrenta uma nova fase geopolítica marcada pelo retorno da política de poder, pelo aumento das tensões econômicas e por riscos crescentes à segurança.

O pronunciamento ocorre em um momento de elevada incerteza estratégica. A guerra na Ucrânia continua, disputas comerciais se intensificam e alianças tradicionais tornam-se mais imprevisíveis. Nesse cenário, Merz argumenta que a Europa não pode mais depender principalmente de atores externos para garantir sua própria segurança.

O que foi dito

Merz destacou que as mudanças atuais são estruturais, e não temporárias. Ele alertou para a consolidação de um sistema internacional dominado por grandes potências, no qual a coerção e o uso do poder voltam a desafiar a ordem global baseada em regras.

Ao mesmo tempo, ressaltou que a Europa ainda possui forças relevantes — econômicas, institucionais e de valores. Para preservar essas vantagens, afirmou que o continente precisa aprender a “falar a linguagem do poder” e agir com maior firmeza no cenário internacional.

Defesa, OTAN e responsabilidade europeia

A segurança foi um dos pontos centrais do discurso. Merz defendeu que os países europeus assumam maior responsabilidade por sua própria defesa. Nesse contexto, mencionou a decisão da Alemanha de elevar os gastos militares para até 5% do PIB, enviando um sinal claro a aliados e adversários.

Apesar disso, o chanceler reforçou que a OTAN continua sendo a base fundamental da segurança europeia. Ele rejeitou qualquer enfraquecimento do vínculo transatlântico, mas enfatizou que a aliança deve ser fortalecida a partir da Europa, com parceiros atuando em pé de igualdade, e não de forma subordinada.

Competitividade econômica como base de poder

A dimensão econômica ocupou papel central na análise de Merz. Ele observou que a União Europeia perdeu competitividade em relação aos Estados Unidos e à China ao longo de mais de uma década, o que limita sua capacidade de influência global.

Para reverter esse quadro, defendeu a remoção de barreiras internas na UE, a simplificação de regras e a conclusão do mercado único. Relatórios elaborados por Enrico Letta e Mario Draghi foram citados como referências para restaurar a competitividade europeia por meio de reformas estruturais, investimentos e redução da burocracia.

Comércio, tarifas e economia global

Merz posicionou-se de forma crítica em relação ao uso de tarifas como instrumento de pressão política. Alertou que a Europa deve estar preparada para responder de maneira unida caso enfrente esse tipo de coerção econômica.

Ao mesmo tempo, defendeu o comércio livre e baseado em regras, destacando a importância contínua da Organização Mundial do Comércio. Segundo ele, a União Europeia deve avançar em novos acordos comerciais, como com a Índia, para acessar mercados em crescimento e reduzir dependências estratégicas.

Ucrânia e credibilidade das alianças

O chanceler também defendeu o papel da Alemanha em missões da OTAN, especialmente no Afeganistão. Ele rejeitou tentativas de desvalorizar os sacrifícios feitos por soldados europeus em operações conjuntas com os Estados Unidos.

Esse ponto possui relevância estratégica: a credibilidade das alianças depende do reconhecimento dos compromissos assumidos e dos custos compartilhados ao longo do tempo. Questioná-los enfraquece a confiança entre parceiros.

Críticas internas e tensões políticas

O discurso foi alvo de críticas duras por parte da oposição, especialmente do partido AfD, que acusou o governo de má gestão econômica, aumento da carga tributária e expansão excessiva do setor público.

Essas tensões internas são relevantes para mercados e investidores. A capacidade do governo de implementar reformas de forma efetiva será determinante para saber se a Alemanha conseguirá recuperar dinamismo econômico e fortalecer sua posição estratégica na Europa.

Análise: Europa entre valores e realpolitik

A fala de Merz indica uma Europa mais consciente de seus interesses e limitações. A mensagem central é que valores, isoladamente, não são suficientes em um mundo cada vez mais moldado pela realpolitik. A Europa precisa defender seus interesses sem abrir mão de sua identidade democrática.

O desafio principal será a execução. Aumentar gastos com defesa, promover reformas econômicas e preservar a coesão social exige equilíbrio político. O risco é que ambições geopolíticas encontrem resistência doméstica crescente.

O que isso significa daqui para frente

Se a estratégia defendida por Merz avançar, a Europa poderá caminhar em direção a maior autonomia estratégica, tanto militar quanto econômica. Para a OTAN, isso significaria um pilar europeu mais forte e um compartilhamento de responsabilidades mais equilibrado.

Para empresas e investidores, um continente mais coeso e competitivo pode se tornar um fator de estabilidade em uma economia global fragmentada. O desfecho dependerá de as promessas políticas se converterem em reformas concretas e sustentáveis.

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