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Escrito por Frode Skar, jornalista financeiro.

Protestos em Minneapolis empurram a América de Trump para um ponto crítico

Minneapolis voltou a ocupar o centro do debate político e social nos Estados Unidos. Em menos de três semanas, duas pessoas morreram durante operações conduzidas por agentes federais de imigração, desencadeando protestos, forte reação pública e questionamentos profundos sobre o rumo do país sob a presidência de Donald Trump.

As imagens que circulam desde a cidade remetem imediatamente a 2020 e à morte de George Floyd. No entanto, o contexto atual apresenta uma diferença essencial. Desta vez, não são as forças policiais locais que estão no centro da controvérsia, mas sim agentes federais de imigração fortemente armados, mobilizados a partir de uma estratégia política centralizada em Washington e marcada por uma lógica de militarização.

Duas mortes que reacenderam a tensão social

A nova onda de protestos teve início após a morte de Alex Pretty, de 37 anos, atingido por disparos durante uma operação federal em Minneapolis. O episódio ocorreu poucos dias depois da morte de outro manifestante, René Gou, em circunstâncias semelhantes.

Vídeos amplamente divulgados nas redes sociais mostram Pretty filmando uma ação contra migrantes. Em seguida, ocorre um confronto. Ele é atingido por gás lacrimogêneo, derrubado no chão e desarmado. Momentos depois, diversos tiros são disparados enquanto ele permanece imobilizado. Pretty trabalhava como enfermeiro de terapia intensiva em um hospital de veteranos e possuía porte legal de arma.

As autoridades federais classificaram o episódio como legítima defesa. Essa versão, porém, tem sido duramente contestada por testemunhas, juristas e organizações de direitos civis. Dois agentes envolvidos foram suspensos, uma medida vista por muitos como insuficiente diante da gravidade dos fatos.

Força federal em cidades governadas por democratas

Minneapolis é administrada por lideranças democratas e está localizada no estado de Minnesota, tradicionalmente identificado como politicamente progressista. Isso transformou a cidade em um alvo simbólico no embate entre o governo Trump e as chamadas cidades santuário, que limitam a cooperação com autoridades federais de imigração.

O prefeito Jacob Frey declarou que Minneapolis não aplicará de forma ativa as leis federais de imigração. A resposta da Casa Branca foi acusar a administração local de comprometer a segurança pública e desafiar a autoridade federal.

O tamanho da operação chamou atenção. Observadores afirmam que o número de agentes federais superou em muito o efetivo da polícia local. As ações incluíram táticas de caráter militar, agentes mascarados, armamento pesado e abordagens em plena luz do dia, reforçando a sensação de ocupação e intimidação.

Reação política e recuo estratégico

Inicialmente, o governo Trump adotou um discurso duro, oferecendo apoio irrestrito aos agentes envolvidos e enquadrando os protestos como ameaça à ordem interna. Essa postura, no entanto, começou a mudar rapidamente.

Pesquisas de opinião indicaram queda na aprovação do presidente e das agências de imigração, inclusive entre eleitores conservadores. Diante disso, a Casa Branca suavizou o tom, promoveu mudanças na liderança das operações e reduziu o ritmo das ações federais em Minneapolis.

Apesar do ajuste retórico, Trump deixou claro que sua política migratória permanece inalterada. O combate à imigração irregular segue sendo um dos pilares centrais de sua agenda.

O negócio por trás da política migratória

Além do embate político, há uma dimensão econômica significativa por trás da intensificação das operações federais. O orçamento do Departamento de Segurança Interna quase dobrou durante a atual administração, transformando a política migratória em uma das áreas mais bem financiadas do governo federal.

Esse crescimento beneficiou uma rede de empresas privadas responsáveis por detenção, transporte, vigilância e deportação de migrantes. Os contratos federais envolvidos alcançam valores bilionários e criam um mercado altamente lucrativo.

Entre as empresas citadas nesse contexto está a consultoria francesa Capgemini, cuja filial nos Estados Unidos participou de contratos relacionados à localização e identificação de estrangeiros. Modelos de remuneração baseados em desempenho levantaram preocupações sobre incentivos financeiros que podem estimular abusos.

Emergência nacional e enfraquecimento dos controles

A administração Trump classificou a imigração irregular como emergência nacional, permitindo contornar processos tradicionais de licitação pública. Com isso, contratos passaram a ser concedidos diretamente, muitas vezes a empresas com vínculos próximos ao poder político.

Críticos afirmam que essa prática dilui a separação entre o interesse público e o privado. Vários integrantes do alto escalão do governo possuem histórico profissional em setores como segurança privada e lobby, o que intensifica as suspeitas de conflito de interesses.

Restrições de vistos e impacto global

A política de linha dura também atingiu a imigração legal. O processamento de vistos para cidadãos de 75 países foi congelado, incluindo nações consideradas aliadas históricas dos Estados Unidos. Pedidos de asilo, programas de reunificação familiar e a loteria do green card foram suspensos.

Segundo dados oficiais, mais de 100 mil vistos foram revogados e milhares de pessoas deportadas. Pela primeira vez em cinquenta anos, o país registra mais saídas do que entradas de população.

As consequências são sentidas internacionalmente. Em países da África, da Ásia e do Oriente Médio, famílias, estudantes e profissionais enfrentam incertezas crescentes. Até grandes eventos globais, como a próxima Copa do Mundo de futebol, passaram a ser afetados por dúvidas relacionadas a vistos e circulação de pessoas.

Minneapolis sob a sombra de George Floyd

Minneapolis carrega um peso simbólico profundo. A morte de George Floyd em 2020 desencadeou protestos globais contra o racismo e a violência policial. O cenário atual, contudo, revela uma sociedade diferente.

Onde antes houve mobilização em massa, hoje prevalecem cansaço, fragmentação e desconfiança. Muitos cidadãos sentem que o uso da força estatal se tornou mais normalizado e menos contestado, enquanto a capacidade de reação coletiva se enfraqueceu.

Perda de confiança e erosão do poder de influência

Artistas, acadêmicos e ex líderes políticos alertam para a rápida deterioração da imagem internacional dos Estados Unidos. Declarações de figuras como Barack Obama e reações no meio cultural e diplomático apontam para um enfraquecimento acelerado do chamado poder de influência do país.

Cada vez mais, os Estados Unidos são vistos como uma nação dividida, que privilegia demonstrações de força e confrontação interna em detrimento do consenso democrático e do respeito às instituições.

Um alerta para a democracia americana

As mortes em Minneapolis vão além do debate migratório. Elas expõem uma crise mais profunda na governança dos Estados Unidos, onde a lealdade política parece se sobrepor à competência institucional e o poder federal é exercido contra parcelas da própria população.

A questão central já não é se o país está polarizado, mas o quão próximo se encontra de uma ruptura duradoura entre Estado e sociedade. Minneapolis pode não ser um episódio isolado, mas sim um sinal antecipado de uma transformação inquietante na democracia americana.

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